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Campo Grande,24/03/2026

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PF investiga atuação de Campos neto no BC


PF investiga atuação de Campos neto no BC Ex-Presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.

A Polícia Federal chegou a um ponto sem volta na investigação do Banco Master. Depois de mapear o suposto esquema de captura do Banco Central por dentro — com servidores de carreira atuando como "consultores informais" do banqueiro Daniel Vorcaro —, os investigadores agora voltaram as lentes para o topo da pirâmide. A pergunta que move as novas diligências é direta: Roberto Campos Neto, que presidiu o BC entre 2019 e 2024, foi deliberadamente enganado pelo corpo técnico que fraudava documentos e adulterava assinaturas, ou tinha ciência das irregularidades e optou por não agir? 

O que está em jogo, portanto, não é apenas a responsabilidade individual do ex-presidente da autarquia, mas a credibilidade do sistema de supervisão financeira como um todo. A PF busca agora cruzar dados de comunicações internas e submeter documentos digitais a perícia para rastrear o rastro das decisões tomadas pela cúpula do BC durante a gestão de Campos Neto . O resultado dessa apuração pode definir se o escândalo permanecerá circunscrito a alguns servidores desviados ou se alcançará o mais alto escalão do órgão regulador.

As Três Frentes da Investigação

1. O Questionamento Ignorado

Em 2023, antes mesmo de o escândalo explodir, a gestora ESH Capital levou ao Banco Central uma denúncia estruturada que detalhava a trajetória de crescimento acelerado do Master, sua forte exposição a ativos de risco e uma estrutura societária que utilizava fundos e veículos offshore para ocultar beneficiários finais . A petição alertava que "a estrutura identificada pode permitir influência relevante sem a correspondente transparência societária" .

A resposta do BC veio em forma de ofício assinado durante a gestão de Campos Neto: os fatos já eram de conhecimento da autarquia e seriam tratados no âmbito da supervisão regular, sem necessidade de procedimento investigativo específico . Em depoimento à CPI do Crime Organizado em 18 de março, o fundador da ESH Capital, Vladimir Timerman, foi incisivo: "29 dias depois da minha denúncia pro Banco Central, é promulgado aquele regulamento do Banco Central, o que impediu o banco de continuar fazendo o que estava fazendo com precatórios" . A declaração sugere que os temas levantados já estavam em discussão antes mesmo de a denúncia formal chegar ao regulador.

2. Os Servidores e a Rede de Infiltração

As investigações já comprovaram que dois servidores de carreira do BC — o ex-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana — mantinham com Vorcaro uma relação que extrapolava qualquer limite ético ou funcional . Ambos foram presos em março, afastados de seus cargos e submetidos a monitoramento por tornozeleira eletrônica.

A decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no STF, descreveu Souza como alguém que "prestava consultoria informal e contínua" a Vorcaro, revisando documentos que seriam enviados ao próprio BC e orientando previamente respostas e estratégias para reuniões institucionais . Santana, por sua vez, recebeu proposta de contratação por meio de uma empresa em nome de terceiros, e mensagens apreendidas mostram o cunhado de Vorcaro cobrando o pagamento: "Belline cobrando. Paga?" — ao que Vorcaro respondeu: "Claro" .

A atuação desses servidores — que segundo a PF forneciam "orientações estratégicas sobre a atuação do BC em processos administrativos envolvendo o Banco Master" — ocorreu entre 2019 e 2023, justamente durante a gestão de Campos Neto . A Controladoria-Geral da União abriu quatro processos administrativos disciplinares contra os dois, com prazo de 60 dias para conclusão .

3. O Argumento da Presidência

Em sua primeira manifestação pública sobre o caso, Campos Neto adotou uma estratégia clara: isentar a presidência da responsabilidade sobre as ações dos servidores. Em nota enviada na segunda-feira (23), ele afirmou que "a presidência do Banco Central não trata das operações específicas de bancos do segmento S3 e não pode ser responsabilizada por falhas de terceiros" .

O argumento se ancora na classificação do sistema financeiro nacional: bancos S1 (ativos acima de 10% do PIB) e S2 (de 1% a 10% do PIB) são monitorados diretamente pela diretoria executiva. O Master, com 0,57% do ativo total do sistema, era uma instituição S3 — tecnicamente sob responsabilidade de áreas técnicas específicas .

Campos Neto também ressaltou que Souza e Santana são servidores de carreira que "já estavam lá antes da gestão de Roberto Campos e assim seguiram até ano passado" . O argumento, embora juridicamente defensável, não elimina a questão central da investigação: se os sinais de alerta eram tão evidentes a ponto de uma denúncia formal ser encaminhada ao BC em 2023, por que a cúpula não tomou medidas mais contundentes?

O Que a PF Quer Saber

A investigação da PF, conforme apurou o colunista Paulo Cappelli do Metrópoles, busca determinar o grau de conhecimento de Campos Neto sobre as irregularidades . Os investigadores trabalham com duas hipóteses principais:

Hipótese 1: Campos Neto foi enganado. Neste cenário, os servidores envolvidos teriam utilizado métodos sofisticados — como falsificação de assinaturas e adulteração de documentos — para camuflar a real situação do banco, criando uma estrutura que resistiria a auditorias convencionais. A complexidade técnica do esquema teria permitido que as fraudes passassem despercebidas pela cúpula .

Hipótese 2: Campos Neto tinha ciência. A segunda linha investigativa parte da premissa de que o ex-presidente sabia das irregularidades ou, no mínimo, dos riscos elevados que o banco apresentava, mas optou por autorizar transações e manter o status quo diante dos sinais de alerta .

Documentos revelados pela imprensa indicam que o BC chegou a dar um ultimato ao Master um mês antes de Campos Neto deixar o comando da instituição — um ano antes de o banco ser liquidado pelo atual presidente, Gabriel Galípolo, em novembro de 2025 . Para os críticos, a pergunta que fica é: por que não antes?

A Dimensão Política e Institucional

A pressão sobre Campos Neto transcende a esfera investigativa. O ex-presidente do BC foi convocado pela CPI do Crime Organizado para depor em 3 de março, em audiência que prometia ser um divisor de águas . No entanto, o ministro André Mendonça converteu a convocação em convite, o que foi interpretado por analistas como um movimento de proteção institucional a um personagem sensível do escândalo .

Além disso, o senador Lindbergh Farias acionou a PF e a Procuradoria-Geral da República com pedidos formais de investigação sobre a conduta de Campos Neto, sob a alegação de omissão na fiscalização bancária . Até o momento, não há denúncia nem condenação contra ele — existem apenas pedidos de apuração e um conjunto de fatos que o colocaram no centro do debate político e institucional .

O Que Está em Jogo

Para além do destino individual de Roberto Campos Neto, a investigação expõe uma fragilidade estrutural no sistema de supervisão financeira brasileiro. Se os mecanismos de controle falharam a ponto de permitir que dois servidores de alto escalão atuassem como "consultores informais" de um banqueiro investigado por fraude, o problema não pode ser reduzido a "falhas de terceiros".

A BBC News Brasil ouviu especialistas que, embora classifiquem os casos como isolados, reconhecem o potencial de abalo à credibilidade da instituição . O economista Roberto Luis Troster, ex-chefe da Febraban, defende que o BC deveria chamar uma investigação externa "para mostrar que é um problema localizado no sistema" .

O tempo, no entanto, é um fator adverso. Enquanto a PF cruza dados e a CGU conclui seus processos administrativos disciplinares, a imagem de um órgão público que deveria ser guardião da estabilidade financeira — e que se vê agora no centro de um escândalo de corrupção e captura — continua sendo corroída. O fio que a PF tenta desenrolar, puxando da base para o topo, pode revelar não apenas quem sabia de quê, mas como um banco de 0,57% do sistema financeiro conseguiu, por anos, operar sob a supervisão de uma autarquia que, segundo sua própria cúpula, não tinha condições de vê-lo.




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