Lulinha abre empresa “de gaveta” na Espanha em meio a investigações da CPMI do INSS
Senador Eduardo Girão (NOVO-CE) exibindo fotografia de 'Lulinha' com a frase 'procurado' na CPMI do INSS. O empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abriu uma empresa na Espanha em janeiro deste ano, em meio ao avanço das investigações da CPMI do INSS e da Polícia Federal sobre o esquema bilionário de fraudes na Previdência Social. Batizada de Synapta SL, a companhia foi registrada no dia 13 de janeiro no Registro Mercantil de Madri e formalizada em 6 de fevereiro, com capital social de 3 mil euros — o equivalente a aproximadamente R$ 18 mil, valor mínimo exigido pela legislação espanhola .
A empresa tem como objeto social atividades genéricas na área de tecnologia, incluindo consultoria técnica e de informática, implementação de soluções digitais, suporte a usuários e intermediação comercial para "identificação de oportunidades de compra ou venda". Lulinha figura como administrador único, e o endereço oficial da Synapta é o mesmo de um escritório de advocacia espanhol, o Monereo Meyer Abogados, especializado em assessoria a empresas estrangeiras — prática permitida por lei tanto na Espanha quanto no Brasil .
Por não apresentar movimentações registradas desde sua abertura e ainda não exercer atividades efetivas, a empresa é considerada, na prática, como "de gaveta" pela própria defesa do empresário . Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Guilherme Suguimori confirmaram a abertura, mas afirmaram que a Synapta foi criada "visando projetos futuros no exterior" e que cumpre todas as exigências legais .
A sombra das investigações
A formalização da empresa ocorre em um contexto delicado. Lulinha teve seu nome citado nas apurações sobre a fraude do INSS a partir do depoimento de uma testemunha que afirmou que ele seria um dos beneficiários do esquema comandado por Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS", apontado como operador das fraudes que lesaram milhões de aposentados .
Documentos sigilosos repassados pela Polícia Federal à CPMI do INSS indicam que, em quatro anos, Lulinha movimentou cerca de R$ 19,5 milhões em suas contas bancárias, considerando entradas e saídas. Os dados bancários mostram que ele recebeu pouco mais de R$ 9,7 milhões e repassou valor equivalente no período .
As investigações apuram se o lobista Antonio Carlos Antunes teria repassado valores a Lulinha por meio da empresária Roberta Luchsinger, amiga de sua mulher, Renata de Abreu Moreira. Luchsinger recebeu R$ 300 mil do "Careca" e é alvo de mandados de busca e apreensão desde dezembro. Uma testemunha afirmou que a transferência faria parte de um pagamento maior, de R$ 1,5 milhão, que teria como destino final "o filho do rapaz" — em referência a Lulinha .
A defesa de Lulinha nega qualquer irregularidade. Carvalho confirmou que o empresário viajou a Portugal em novembro de 2024 com Antunes, mas afirmou que o objetivo foi conhecer uma fábrica de cannabis medicinal e que não houve relação comercial. "Fábio não está, de nenhuma forma, ligado ao Antônio Carlos, é só olhar as informações bancárias", declarou à imprensa .
Mudança para o exterior e reação da defesa
Lulinha deixou o Brasil em meados de 2025 e fixou residência em Madri, onde vive com a família e matriculou os filhos em escola local, sem previsão de retorno — informação confirmada por seus advogados. A ida para a Espanha já era de conhecimento de aliados do presidente desde o ano passado, quando a primeira operação para apuração das fraudes do INSS já havia ocorrido, mas ainda não havia notícia de ligações dele com o caso .
Em relatório recente, a Polícia Federal apontou que a mudança de país "denota possível evasão do país, considerando estar associado aos fatos relacionados ao principal operador das fraudes bilionárias a milhões de aposentados do Brasil" . O documento da PF ainda destaca que, do ponto de vista investigativo, a ausência de previsão de retorno pode complicar os trabalhos, como a realização de buscas e apreensões e a entrega de intimações .
Os advogados de Lulinha rebatem a suspeita. Carvalho afirmou que a mudança não tem relação com as investigações e que, caso o ministro do STF André Mendonça, relator do caso, entenda necessário, o empresário retornará ao Brasil para prestar esclarecimentos. "Não há nenhuma irregularidade, o Fábio deixou o Brasil com o objetivo de viver em Madri, onde está criando seus filhos e vive uma vida absolutamente tranquila", disse .
Poucas semanas antes de abrir a empresa na Espanha, Lulinha transferiu a administração de suas empresas no Brasil — a LLF Tech Participações, a G4 Entretenimento e Tecnologia e a BR4 Participações — para a mulher, Renata de Abreu Moreira. Segundo a defesa, a medida foi "meramente operacional" em razão do novo projeto profissional no exterior, e as empresas brasileiras seguem abertas mas inativas, com créditos a receber sob discussão judicial .
Quebra de sigilo e desdobramentos
Lulinha teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados pelo STF a pedido da Polícia Federal e pela CPMI do INSS em fevereiro, mas o acesso aos dados foi suspenso pelo ministro Flávio Dino, e a questão será julgada em plenário físico da Corte . A defesa do empresário afirma que ele se dispõe a colaborar e que a busca por privacidade é resultado de "feridas que persistem" de episódios anteriores, como a perda da mãe e de um sobrinho durante a Lava Jato .
Em nota, os advogados reiteraram que Lulinha "não tem relação com as fraudes do INSS, não participou de fraudes ou desvios e não recebeu valores dessa fonte criminosa" .
Enquanto as investigações prosseguem, a Synapta SL permanece como um registro sem atividade em Madri, no mesmo endereço de um escritório de advocacia cujos funcionários disseram desconhecer a empresa do filho do presidente brasileiro . Procurado, um dos responsáveis pelo local negou fornecer informações alegando sigilo profissional .



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