Legado de Haddad como Ministro pela Fazenda deixa mais impostos, gastos em alta e dívida explosiva
Ministro Fernando Haddad. A iminente saída de Fernando Haddad do Ministério da Fazenda para disputar o governo de São Paulo recoloca em debate os números de sua gestão à frente da economia brasileira. Para setores do mercado e da oposição, o legado que fica é marcado por uma combinação preocupante: aumento da carga tributária, expansão dos gastos públicos e uma trajetória explosiva da dívida do país .
Durante sua passagem pela Fazenda, Haddad conduziu políticas que, segundo críticos, resultaram em um aperto tributário significativo sobre setores produtivos e contribuintes. A expressão "fúria arrecadatória", embora negada pelo ministro, tornou-se recorrente entre analistas que apontam a criação de novos impostos e a ampliação da base de incidência de tributos existentes como marcas do período .
Em setembro do ano passado, o próprio Haddad defendeu que a política fiscal não depende apenas do Executivo, citando o crescimento das emendas parlamentares e dos precatórios como fatores de pressão sobre o Orçamento. Na ocasião, ele estimou que decisões judiciais, como a chamada "Tese do Século", representaram um "tombo" de mais de R$ 1 trilhão em perda de arrecadação, equivalente a 10% do PIB da dívida pública brasileira .
O ministro também atribuiu parte do atual quadro fiscal a despesas contratadas ainda no governo anterior, como expansões no Benefício de Prestação Continuada (BPC) e no Fundeb, que somam cerca de R$ 70 bilhões anuais. "Não somos nós que estamos gastando, mas nós estamos honrando uma despesa que foi contratada em 2021", justificou na época .
Apesar das críticas, Haddad defende seu legado. Em suas palavras, o governo entregará "o melhor crescimento médio dos últimos 12 anos; a menor inflação de um mandato desde o Plano Real; a menor taxa de desemprego da série histórica; o melhor desempenho fiscal dos últimos três mandatos e a maior reforma tributária já feita sob qualquer regime" .
O Desafio Eleitoral em São Paulo
Enquanto prepara sua despedida do ministério — com data prevista para 3 de abril, prazo final para desincompatibilização —, Haddad se vê diante de uma missão que seus aliados definem como "inglória", mas necessária: enfrentar o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) no maior colégio eleitoral do país .
A mais recente pesquisa Datafolha, divulgada no último domingo (8), mostra o atual governador com 44% das intenções de voto contra 31% de Haddad no primeiro turno. No segundo turno, a vantagem de Tarcísio se mantém: 52% a 37% .
Apesar da desvantagem numérica, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) aposta em um discurso de virada. Em declaração à Folha de S.Paulo, Falcão afirmou que "com a candidatura do Haddad, o favoritismo do Tarcísio vai virar pó". O parlamentar listou vulnerabilidades que pretende explorar na campanha: "Recordista em feminicídio, campeão em pedágios, inimigo da educação e sabotador da Sabesp, o governador terá como adversário um ministro competente, honesto e realizador" .
Em entrevista ao Brasil 247, Falcão aprofundou a estratégia: "Não existem candidatos imbatíveis, tem favoritos. O Lula é favorito, como o Tarcísio aqui é favorito em São Paulo". Para ele, o governador acumula problemas políticos e administrativos que podem ser explorados, como insatisfação de prefeitos e desgastes em torno da privatização da Sabesp .
A Estratégia por Trás da Candidatura
Analistas políticos apontam que a aposta em Haddad vai além da disputa estadual. O objetivo central do PT é reduzir a vantagem de Tarcísio em São Paulo para evitar que o governador atue como "líquido" eleitoral para a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL) — ou mesmo para uma eventual candidatura própria do governador em 2030 .
Em 2022, Haddad chegou ao segundo turno contra Tarcísio e, mesmo perdendo, angariou 45% dos votos para a chapa liderada por Lula — uma performance muito superior à de Luiz Marinho em 2018, que ficou em quarto lugar com 12%. A diferença de votos entre Bolsonaro e Lula em São Paulo caiu de 8 milhões em 2018 para 2,7 milhões em 2022, um encolhimento que foi decisivo para o revés nacional do ex-presidente .
O colunista Bruno Soller, do R7, resume a lógica: "Ganhar em São Paulo, por vezes, é só perder de pouco. Nesse sentido, candidaturas afirmativas cumprem um papel importante para ajudar na missão maior que é conquistar a República" . Segundo ele, Haddad seria "a melhor ferramenta para criar coesão eleitoral na oposição paulista e ajudar o atual presidente no seu projeto de poder" .
Os Riscos para Haddad
A relutância do ministro em aceitar o desafio, no entanto, tem razões objetivas. Além do favoritismo de Tarcísio — que conta com 67% de aprovação e pode liquidar a eleição no primeiro turno —, Haddad coloca em jogo seu próprio futuro político. Uma derrota expressiva cristalizaria a imagem de "perdedor" que vem se acumulando desde 2016, quando não obteve a reeleição na Prefeitura de São Paulo .
O governador também ganhou musculatura política ao selar aliança com Flávio Bolsonaro e ser escolhido coordenador da campanha presidencial do bolsonarismo em São Paulo, movimento que fortalece seu palanque e consolida a aproximação com siglas importantes da direita .
Há ainda o histórico do PT no estado: desde sua fundação, em 1980, o partido disputou as onze eleições ao governo e nunca elegeu um governador. Em apenas duas oportunidades chegou ao segundo turno — em 2002, com José Genoino, e em 2022, com o próprio Haddad .
A Pressão de Lula e o Desfecho
Após intensa pressão do presidente Lula e da cúpula do PT, Haddad finalmente admitiu nesta terça-feira (10) que discute com o chefe do Executivo sua candidatura. "Eu estou discutindo com o presidente. Evidentemente é uma conversa, em geral, reservada. Nós estamos, com muita tranquilidade, conversando sobre São Paulo e sobre outros locais", declarou durante evento do BTG Pactual .
O ministro não confirmou se disputará o governo ou o Senado, mas sinalizou que a decisão está próxima: "Ontem eu estive com o presidente num café da manhã, e ele ainda me pediu mais algumas coisas na saideira. Não tem data ainda, mas fiquem tranquilos. Eu saio" .
A avaliação interna do partido é que, independentemente do resultado, Haddad cumprirá seu papel de "soldado" da legenda. Resta saber se, ao final da batalha eleitoral, seu legado à frente da Fazenda será lembrado pelos números que apresenta — ou pela narrativa que a oposição construiu em torno deles.



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