Ação dos EUA na Venezuela eleva risco de fuga de traficantes para o Brasil
Operação dos EUA com militares de El Salvador prederam vários traficantes que atuavam na região. A recente intensificação das ações militares e das sanções econômicas dos Estados Unidos contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela está gerando uma consequência direta e alarmante para a segurança regional: o aumento significativo do risco de fuga de traficantes e organizações criminosas para o Brasil. Este fenômeno expõe a intrincada teia do crime organizado transnacional e a fragilidade das fronteiras na América do Sul.
A Venezuela, há anos imersa em uma profunda crise política e econômica, tornou-se um importante hub para o tráfico de drogas, especialmente da cocaína colombiana, devido à corrupção institucional, ao controle parcial de rotas por grupos irregulares e à fragilidade do Estado. A pressão norte-americana, que inclui operações antidrogas mais agressivas no Mar do Caribe e no próprio território venezuelano, visa desarticular essas redes. No entanto, essa pressão, sem um aparato estatal venezuelano eficaz para conter e prender os criminosos, tem um efeito colateral previsível: a dispersão.
Grupos criminosos, quando sob cerco, não se dissolvem; eles se realocam. E o Brasil, com sua extensa e porosa fronteira terrestre de mais de 2.200 km com a Venezuela, representa um refúgio estratégico e um novo mercado extremamente atraente. O norte do Brasil, em especial os estados de Roraima e Amazonas, já sofre com a atuação de facções nacionais e a infiltração de grupos venezuelanos ilegais (como os pranes das gangues carcerárias). Um influxo maior de traficantes experientes, com conexões internacionais e disputas violentas por território, pode catalisar um novo ciclo de violência na região.
O risco não se limita ao tráfico de drogas. O crime organizado transnacional é uma hidra de muitas cabeças: tráfico de armas, contrabando de combustível e minerais, exploração ilegal de madeira e ouro na Amazônia, e até mesmo o tráfico de pessoas podem ser intensificados com a migração desses grupos para o território brasileiro. A infraestrutura de logística ilegal já existente na tríplice fronteira amazônica pode ser otimizada por esses novos atores, aumentando o poder e o alcance das organizações criminosas.
Este cenário exige uma resposta urgente e coordenada. O Brasil não pode ser um refúgio passivo. É fundamental que o governo federal fortaleça de forma imediata e substantiva a presença das forças de segurança e de fiscalização na fronteira norte, integrando inteligência, ações da Polícia Federal, Forças Armadas e IBAMA. No entanto, a solução não é apenas nacional. A cooperação internacional é vital.
O Brasil precisa trabalhar em estreita coordenação com agências dos EUA, da Colômbia e de outros países andinos para compartilhar informações em tempo real sobre o deslocamento de criminosos. É um paradoxo perigoso: a ação de um país (EUA) para combater o crime em um território (Venezuela) pode exportar a violência para um terceiro (Brasil), exigindo que este último amplie seus esforços e gastos em segurança.
A crise venezuelana, portanto, deixa de ser apenas um drama humanitário ou geopolítico para se tornar um catalisador direto de ameaças à segurança pública brasileira. A fuga de traficantes para o Brasil não é uma hipótese remota; é um desdobramento em curso. Ignorar esta realidade ou subestimar sua magnitude pode custar caro, aprofundando o controle de territórios nacionais por organizações criminosas sem pátria, cujo único objetivo é o lucro, à custa da lei, da ordem e da soberania do Estado brasileiro.



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