Adiamento de acordo União Europeia–Mercosul aponta novo fracasso da diplomacia de Lula
Lula se vendeu como grande negociador mas até agora se mostrou um verdadeiro "nânico" diplomático. A realização da COP-30 em Belém, em 2025, deveria ter sido o palco da consagração da diplomacia ambiental e comercial do governo Lula. Sob o símbolo da Amazônia, a expectativa era que o Brasil liderasse, com autoridade moral renovada, a conclusão do histórico acordo de associação entre o Mercosul e a União Europeia, um pacto duas décadas em gestação. No entanto, o que se seguiu foi outro adiamento – mais um – nas negociações. Este revés não é um mero contratempo burocrático; ele expõe de maneira crua as contradições e limitações da atual política externa brasileira, apontando para um fracasso diplomático de proporções significativas.
O governo Lula retornou ao Planalto prometendo a reinserção soberana do Brasil no mundo, com base em três pilares: a defesa intransigente da soberania amazônica, a reativação do multilateralismo sul-americano e a obtenção de conquistas comerciais concretas que beneficiassem a indústria nacional. O acordo com a UE era a encarnação perfeita desse projeto ambicioso. Sua conclusão seria um triunfo que conjugaria proteção ambiental, integração regional e acesso a um mercado de 450 milhões de consumidores.
A crítica ao governo, neste ponto, é direta: a diplomacia de Lula mostrou-se mais habilidosa na retórica do que na execução. A COP-30, apesar de seu simbolismo, não foi suficiente para destravar os nós políticos que impedem o acordo. O governo subestimou a profundidade das resistências internas e externas.
Internamente, o presidente falhou em construir um consenso nacional em torno do tratado. Setores do agronegócio permanecem receosos das cláusulas ambientais, vistas como barreiras não tarifárias disfarçadas, enquanto a indústria, apoiadora do acordo, clama por mais salvaguardas contra a concorrência europeia. Lula, em seu estilo conciliador que muitas vezes beira a ambiguidade, não conseguiu impor uma posição unificada ao país, deixando brechas que a bancada ruralista e certos setores industriais exploram para minar as negociações.
Externamente, a postura de "não se curvar a exigências" e de defender a soberania a qualquer custo – embora legítima em tese – cristalizou-se em uma rigidez contraproducente. A União Europeia, pressionada por um parlamento e uma sociedade civil cada vez mais verdes, não cederá em seus pontos centrais sobre padrões sanitários e ambientais. A insistência brasileira em tratar todas as demandas europeias como "colonialismo verde" ou protecionismo, sem oferecer contrapartidas críveis e verificáveis, emperrou o diálogo. A diplomacia brasileira, que outrora soubera ser pragmática, parece ter trocado a flexibilidade tática por um princípio inflexível que, no fim, isola o país.
O maior fracasso, no entanto, talvez seja no âmbito regional. A revitalização do Mercosul era condição sine qua non para qualquer negociação séria. No entanto, o bloco segue enfermo, com membros desalinhados (como a Argentina de Milei, crítica ferrenha do acordo) e uma agenda interna paralisada. Lula não conseguiu, até agora, revigorar o Mercosul como projeto político e econômico coeso. Sem uma união aduaneira efetiva e uma voz harmonizada, a posição negociadora do bloco é frágil. A diplomacia brasileira concentrou-se excessivamente no eixo bilateral Brasil-UE, negligenciando o paciente e necessário trabalho de costura interna no Mercosul.
O adiamento pós-COP-30 tem um custo tangível. Enquanto o acordo patina, o Brasil perde oportunidades de investimento, diversificação econômica e ganhos de produtividade. Países competidores assinam seus próprios acordos com a UE e outros mercados, enquanto nossa indústria fica para trás. O "multilateralismo dos pobres" ou as aproximações geopolíticas com China, Irã e Rússia – ainda que importantes para a autonomia estratégica – não compensam o preço de fecharmos as portas a um acordo que modernizaria nossa economia e ancoraria o país a padrões globais de produção.
Conclui-se, portanto, que o governo Lula, apesar de ter resgatado a credibilidade ambiental do Brasil e seu prestígio diplomático após os anos de isolamento bolsonarista, está falhando na hora de converter esse capital político em resultados concretos e duradouros. A diplomacia, que se quer altiva, tornou-se, em aspectos cruciais, imóvel. O adiamento do acordo UE-Mercosul não é apenas mais um capítulo de uma longa novela. É o sintoma de uma estratégia que, ao buscar defender a soberania de todos os ventos, arrisca-se a naufragar no porto, deixando para o Brasil e para o Mercosul o amargo legado da oportunidade perdida. A crítica não é ao objetivo, mas à falta da habilidade e do pragmatismo necessários para alcançá-lo.



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