Às vésperas da eleição, Lula adia “imposto do pecado” e lança novo Desenrola em meio a críticas de paliativismo
Governo recua na tributação de produtos nocivos e amplia renegociação de dívidas, mas especialistas veem ciclo de incentivo ao endividamento. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem ajustando sua agenda econômica e tributária com um objetivo claro em mente: minimizar desgastes às vésperas da disputa eleitoral. Duas frentes sensíveis estão no centro dessa estratégia — o chamado "imposto do pecado" e o programa Novo Desenrola — e já provocam reações polarizadas entre aliados, oposição e especialistas.
De acordo com informações apuradas nos bastidores do Planalto, o presidente Lula decidiu adiar a proposta que prevê a criação ou ampliação do chamado "imposto do pecado" — tributação elevada sobre produtos considerados nocivos à saúde e ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas, refrigerantes e alimentos ultraprocessados.
O motivo, segundo interlocutores do governo, é eminentemente eleitoral. A medida, embora defendida por técnicos da área da saúde e por organismos internacionais como recomendação de boa prática fiscal, é extremamente impopular entre consumidores de baixa renda e poderia gerar reação negativa em segmentos importantes do eleitorado.
O governo avalia que, neste momento, qualquer aumento de imposto — mesmo que justificado como política de saúde pública — seria interpretado como mais um fardo ao trabalhador e poderia alimentar discursos da oposição nas campanhas eleitorais. Assim, a proposta foi remetida a uma "quarentena" indefinida, com possibilidade de ser retomada apenas após o pleito.
Críticos do adiamento apontam que a decisão representa um recuo diante de compromissos assumidos internacionalmente, além de desperdiçar a oportunidade de desestimular o consumo de produtos prejudiciais à saúde. Já aliados do governo defendem que "não é momento de jogar gasolina na fogueira" e que medidas impopulares devem ser deixadas para um segundo mandato.
Paliativo eleitoreiro ou alívio necessário?
Paralelamente, o governo lançou uma nova edição do programa Desenrola, batizada de "Novo Desenrola", que amplia prazos e condições para renegociação de dívidas de pessoas físicas. A princípio, a medida parece benéfica para milhões de brasileiros negativados — e, justamente por isso, carrega forte apelo eleitoral.
No entanto, analistas econômicos e setores da oposição classificam o programa como "paliativo eleitoreiro". O principal argumento é que o Novo Desenrola não combate as causas estruturais do endividamento das famílias, como os altos juros do rotativo do cartão de crédito, o descontrole do crédito consignado e a falta de educação financeira.
Pelo contrário: ao oferecer renegociações facilitadas e descontos expressivos para quitamento de dívidas antigas, o programa cria um incentivo perverso para que consumidores voltem a se endividar no futuro. A lógica, segundo críticos, seria: "endivida-se agora, porque amanhã haverá um novo programa de renegociação".
Esse ciclo de endividamento seguido de renegociação aliviada mantém o consumo artificialmente aquecido no curto prazo — o que interessa politicamente em ano eleitoral — mas não promove a necessária mudança de comportamento de agentes financeiros e consumidores.
O governo rebate as críticas afirmando que o Desenrola já tirou milhões de brasileiros do cadastro de inadimplentes e que o Novo Desenrola é uma continuação natural de uma política bem-sucedida. "Alívio imediato não é incompatível com reforma estrutural", argumentam auxiliares do presidente.
Curto prazo vence o longo prazo
As duas decisões — adiar o "imposto do pecado" e avançar com um novo programa de renegociação de dívidas — revelam uma mesma estratégia de governo em ano eleitoral: priorizar medidas de impacto positivo imediato na percepção do eleitor, ainda que isso signifique postergar ou enfraquecer reformas estruturais necessárias.
O imposto sobre produtos nocivos fica para depois. O incentivo ao consumo via renegociação facilitada segue adiante. O resultado, na visão de economistas independentes, é um alívio de curto prazo que não resolve os problemas crônicos da economia brasileira — e pode, ao fim, custar caro em termos fiscais e comportamentais.
Restará saber se o eleitor perceberá essas nuances ou se o alívio imediato ofuscará, nas urnas, o debate sobre a consistência das políticas públicas. Até lá, o governo aposta que o presente rende mais voto do que o futuro.



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