Crise no transporte coletivo: as falhas que ameaçam a concessão bilionária do Consórcio Guaicurus
(Foto: Reprodução) A comissão instituída pela Prefeitura de Campo Grande para analisar um possível processo de intervenção no Consórcio Guaicurus identificou diversas falhas no contrato de concessão firmado para a exploração do transporte coletivo na capital, no valor de R$ 3,4 bilhões.
Em 17 de dezembro de 2025, o juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos, determinou a abertura de um processo com o objetivo de avaliar a necessidade de intervenção no consórcio.
As empresas assumiram a gestão do transporte público da cidade em outubro de 2012 e, desde então, acumulam duras críticas pela baixa qualidade dos serviços prestados. Nesse período, o Consórcio Guaicurus já foi alvo de diversas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), que, no entanto, sempre terminaram sem desfechos concretos. A mais recente, realizada no ano passado, teve seu relatório encaminhado ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), onde o caso permanece paralisado.
De acordo com a reportagem, o processo deve entrar em sua fase final. O prazo inicial para conclusão era maio, mas houve um pedido de prorrogação por mais 30 dias. Assim, o documento que poderá recomendar ou não a intervenção no consórcio à prefeita Adriane Lopes (PP) deverá ficar pronto até o início de junho.
Os trabalhos estão sob a coordenação da Procuradora-Geral do Município (PGM), Cecília Saad Cruz Rizkallah.
Foco na frota sucateada
Um dos principais aspectos investigados pela comissão diz respeito a irregularidades na frota do Consórcio Guaicurus. A situação precária é amplamente conhecida e alvo de denúncias diárias feitas por passageiros ao Jornal Midiamax. Os problemas incluem falhas mecânicas, goteiras e até incêndios provocados pela má conservação dos veículos.
Um relatório preliminar elaborado pela Agência de Regulação dos Serviços Delegados (Agereg) e pela Agência Municipal de Transportes (Agetran) já está concluído. O documento aponta diversas violações ao contrato que, entre 2013 e 2024, garantiu um faturamento de R$ 1,8 bilhão ao grupo de empresários. O levantamento detalha quais cláusulas foram descumpridas, desde quando as irregularidades ocorrem e quais medidas precisam ser tomadas.
Nos próximos dias, o Consórcio Guaicurus deverá ser intimado a apresentar seu contraditório, ou seja, a defesa sobre as razões do não cumprimento contratual.
Em nota enviada à reportagem, o consórcio informou que ainda não teve acesso ao processo administrativo, mas que “apresentará todas as suas manifestações, esclarecimentos e planos de trabalho técnicos”. A assessoria de imprensa acrescentou que a empresa está “à disposição do poder concedente e da sociedade para, de forma transparente e técnica, construir as soluções necessárias para o sistema de transporte da Capital”.
O caminho até a decisão da prefeita
A presidente da comissão de intervenção e procuradora-geral do município, Cecília Rizkallah, explicou ao Jornal Midiamax que, após o retorno do Consórcio Guaicurus sobre as irregularidades apontadas, a prefeitura deverá agendar uma audiência pública. Segundo a PGM, o objetivo é ouvir a sociedade antes da emissão de um parecer final: “Para questionamentos da sociedade, para apontar insatisfações e ideias. É focar, basicamente, na opinião pública”, adiantou.
Somente depois dessa etapa é que um relatório técnico, com a recomendação pela intervenção ou por outra medida, será encaminhado à prefeita.
Consórcio troca comando e rumores de venda se espalham
Os controladores do conglomerado tentam repassar a concessão do serviço. Embora o contrato permita a venda — desde que aprovada pela Prefeitura —, os empresários evitam falar sobre o assunto, enquanto a população segue reclamando da qualidade do transporte.
No fim de semana, o consórcio anunciou a demissão do diretor-presidente Themis de Oliveira. A nota oficial menciona que ele tinha projetos pessoais que motivaram seu afastamento. Até que um novo nome seja escolhido, João Rezende Filho, antecessor de Themis, assumiu interinamente. Rezende é uma figura conhecida da população e chegou a ser confrontado na CPI pela gestão questionável do serviço.
Desde o anúncio, o Jornal Midiamax tentou, sem sucesso, contato direto com Themis e Rezende para comentar a mudança na gestão e os rumores de venda. Ligações e mensagens não foram respondidas até o fechamento desta edição. Por meio de sua assessoria, o consórcio limitou-se a dizer que se trata de “um processo estritamente corporativo de governança e reestruturação interna”.
Vereadores citam crise nas empresas de ônibus
Relatora da CPI do Transporte, a vereadora Ana Portela (PL) afirmou que a saída de Themis agravou ainda mais a crise na concessionária. “O problema está escancarado. Isso ficou mais que evidenciado na falta de gestão por parte das pessoas que estão à frente do Consórcio, e está comprovado no relatório final da CPI”, declarou.
Membro da CPI, Junior Coringa (MDB) também destacou que a saída de Themis reforça o desgaste do consórcio. “A CPI evidenciou o sucateamento ao longo dos anos do Consórcio Guaicurus. A saída de mais um executivo agora, o Themis, reforça a percepção de que o Consórcio está, cada vez mais, desconectado da realidade de Campo Grande e das necessidades da população. Acredito que o desgaste do Consórcio Guaicurus e a falta de investimento levaram a isso”, disse.
Também integrante do colegiado, Maicon Nogueira (PP) apontou a demissão do diretor-presidente como um indicativo dos planos de venda da concessionária. “Temos a informação de que houve uma tentativa de venda das empresas para um grupo de outro estado e estamos aguardando os desdobramentos. A saída do diretor pode ser um indicativo de que houve essa venda”, sugeriu. “É no mínimo suspeito esse silêncio da Prefeitura após a publicação da Comissão de Intervenção”, concluiu.



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