Pressão nacional e internacional expõe crise de credibilidade no STF
Fachada do Supremo Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal (STF) enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história recente. Entre denúncias de envolvimento de ministros com o setor financeiro, críticas da imprensa internacional e mobilização de entidades da sociedade civil, a Corte tenta reagir com medidas que possam restaurar a confiança pública – como o debate sobre o fim dos supersalários no funcionalismo e a adoção de um código de conduta para seus membros.
The Economist expõe ligações de ministros com Banco Master
A mais recente pressão sobre o STF veio de fora do país. A revista britânica The Economist publicou nesta semana uma reportagem contundente afirmando que o tribunal está envolvido em um "enorme escândalo" . O texto detalha as investigações sobre fraudes financeiras do Banco Master e revela conexões de dois ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro.
De acordo com a publicação, o ministro Dias Toffoli, inicialmente designado relator da investigação sobre o banco, viajou de jatinho particular com o advogado Augusto Arruda Botelho, que presta serviços a membros da instituição financeira. Toffoli também é sócio oculto da Maridt, empresa que tinha participação em resorts negociados com fundos de investimento ligados ao cunhado de Vorcaro. Quando as conexões vieram a público, o ministro pediu para deixar a relatoria do caso .
Já o ministro Alexandre de Moraes teve sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, contratada pelo Banco Master em um acordo que previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por 36 meses, totalizando até R$ 129 milhões. O STF abriu investigação para apurar possíveis irregularidades e vazamentos de dados da Receita Federal envolvendo ministros e familiares .
A revista britânica também fez referência ao papel do STF no julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe, sugerindo que a concentração de poder na Corte pode agravar a crise de confiança. "Alguns membros do tribunal parecem acreditar que têm um problema, pelo menos com a percepção pública", afirmou a publicação .
STF rebate e nega crise
Em resposta às críticas, o STF divulgou nota oficial rebatendo as acusações. O presidente da Corte, ministro Luís Roberto Barroso, afirmou que o enfoque da matéria "corresponde mais à narrativa dos que tentaram o golpe de Estado do que ao fato real de que o Brasil vive uma democracia plena" .
O tribunal negou que exista crise de confiança e citou pesquisa Datafolha de 2024 para sustentar o argumento: 21% dos entrevistados dizem confiar muito no Supremo, 44% confiam um pouco e 30% não confiam. Para a Corte, os números demonstram que a maioria da população mantém algum nível de confiança na instituição .
Sobre as críticas a Moraes, Barroso saiu em defesa do colega, classificando-o como um juiz que "cumpre com empenho e coragem o seu papel, com o apoio do tribunal". Ele rebateu sugestões de que Moraes deveria ser suspenso do julgamento de Bolsonaro: "Se a suposta animosidade em relação a ele pudesse ser um critério de suspeição, bastaria o réu atacar o tribunal para não poder ser julgado" .
Agenda positiva e tentativa de frear supersalários
Diante da repercussão negativa, o presidente do STF, Edson Fachin, propôs a adoção de um código de conduta para os membros do tribunal – medida que classificou como uma "defesa" da Corte . A iniciativa integra um esforço mais amplo para criar uma agenda positiva, que inclui o debate sobre o fim dos supersalários no serviço público, bandeira histórica de transparência e moralidade.
A tentativa de frear remunerações acima do teto constitucional, que somam milhões em penduricalhos no Judiciário, é vista como uma forma de responder às críticas da sociedade e reduzir a imagem de distanciamento entre a Corte e os cidadãos comuns.
Entidades da sociedade civil ampliam pressão por ética
Paralelamente, entidades ligadas ao combate à corrupção e à defesa da transparência pública intensificaram a cobrança por medidas concretas de ética no STF. Organizações como a Transparência Internacional e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral têm acompanhado de perto os desdobramentos do caso Master e cobrado respostas institucionais.
A pressão ocorre em um ano eleitoral, e a The Economist já adverte que candidatos de direita podem ampliar sua presença no Congresso usando como bandeira a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo .
Enquanto Toffoli e Moraes afirmam nunca ter julgado casos com conflito de interesses e consideram a adoção de um código de ética desnecessária, a revista britânica resumiu o momento delicado da Corte: "Independentemente de suas crenças, seus inimigos no Congresso estão de olho" .
Agora, o STF enfrenta o desafio de equilibrar a defesa de sua atuação na preservação da democracia com a necessidade de responder às crescentes suspeitas que rondam seus membros – missão que exigirá mais do que notas oficiais para ser cumprida.



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