PCC reorganiza cúpula com 16 Integrantes e expande atuação com empresários do setor de combustíveis
Novo organograma do PCC foi divulgado pela Polícia Civil de São Paulo. (Foto: Infografia/Gazeta do Povo) A Polícia Civil de São Paulo concluiu um novo mapeamento da cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC), revelando uma reorganização estrutural da facção que agora concentra as decisões estratégicas em um colegiado de 16 integrantes. O relatório, obtido pela reportagem, detalha as 14 "sintonias" que compõem o organograma da organização criminosa e aponta a participação de empresários do setor de combustíveis como "associados" responsáveis por operações financeiras e lavagem de dinheiro .
De acordo com o documento da inteligência da Polícia Civil, o PCC conta atualmente com 89 líderes distribuídos em diferentes funções dentro da facção — 52 deles estão presos e 36 em liberdade. O comando máximo, no entanto, está concentrado em um núcleo de 16 integrantes que centralizam todas as decisões estratégicas da organização.
Marcos Herbas Camacho, o Marcola, segue como líder máximo da facção. Preso desde 1999 e no sistema federal de segurança máxima desde 2019, ele é apontado como comandante do PCC a partir de 2002.
O novo organograma da facção é composto pelas seguintes sintonias:
Sintonia Final, Sintonia Final do Sistema, Sintonia Restrita, Sintonia Final de Rua e Sintonia Final dos Estados e Países
Sintonia do Progresso e Setor da Padaria
Sintonia Interna, da Internet e Redes Sociais
Setor do Raio-X
Sintonia Final da Baixada
Sintonia dos Gravatas
Quadro dos 14 e FM-BX
O Setor do Raio-X e o Compliance do Crime
O relatório detalha as funções de cada setor. O Setor do Raio-X atua como uma espécie de compliance, corregedoria e auditoria da facção, monitorando a conduta, movimentações e cumprimento de ordens pelos membros. Está sob o comando do preso Gratuliano de Souza Lira, o Quadrado.
Já a Sintonia da Internet e Redes Sociais coordena as comunicações digitais, padroniza a linguagem ideológica do grupo, monitora publicações e dá suporte técnico para garantir segurança nas trocas de mensagens por aplicativos criptografados. A sintonia é comandada por André Luiz de Souza, o Andrezinho, e Eduardo Fernandes Dias, o Destino, ambos presos.

Os "Associados": Empresários a Serviço da Facção
O relatório classifica como "associados" os executivos do crime que não são formalmente "batizados" na facção, mas que negociam com o PCC, especialmente nas áreas de finanças e lavagem de dinheiro . Entre eles, o documento cita:
Mohamad Hussein Mourad, o "Primo" — Empresário do setor de combustíveis, foragido da Justiça desde agosto de 2025, quando se tornou alvo da Operação Carbono Oculto . Segundo as investigações, ele é apontado como o "cabeça" de um esquema bilionário de fraudes no mercado de combustíveis, atuando ao lado de Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco". Sua rede inclui familiares, sócios e administradores que desempenham papéis cruciais na lavagem de capitais .
A investigação aponta que a Maximus, uma das empresas investigadas, tinha o mesmo endereço da Safra Distribuidora de Petróleo S.A., em Iguatemi, que por sua vez tinha sete distribuidoras. Em Iguatemi, o presidente é indicado como Armando Hussein Ali Mourad, irmão de Mohamad.
Mauricio Hernandez Norambuena — Guerrilheiro preso no Chile e um dos sequestradores do publicitário Washington Olivetto, em 2001.
Os "Decretados" e o Raio-X da Cúpula
O relatório também identifica a categoria dos "Decretados" — ex-líderes expulsos da facção que atualmente vivem sob ameaça de morte da própria organização. Entre eles estão os presos Abel Pacheco de Andrade, o Vida Loka, que foi número dois do PCC e rompeu com Marcola; e Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho, acusado de participação na morte do prefeito de Campinas, Toninho do PT, em 2001.
A Operação Carbono Oculto e as Conexões com o PCC
Conforme o relatório da época da deflagração da Operação Carbono Oculto, "há fortes laços entre o grupo de Mohamad e a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que se beneficiam do ecossistema de lavagem de capitais facilitado pela atuação nas usinas e no setor de combustíveis" .
Mohamad Hussein Mourad é apontado como o epicentro das operações, com familiares e associados desempenhando papéis cruciais na blindagem patrimonial. "Sua rede é extensa e inclui familiares, sócios, administradores e profissionais cooptados", diz o documento.
O documento ainda detalha a divisão de tarefas:
Ricardo Romano é identificado como figura-chave em um dos grupos, explicitamente vinculado à atividade de lavagem de dinheiro, com conexões com o PCC
Sergio Luiz Freitas da Silva atua de forma multifacetada como advogado, gestor e administrador de empresas e fundos de investimento, desempenhando papel relevante na blindagem patrimonial
Himad Abdallah Mourad é apontado como um dos principais expoentes do grupo, fundamental para a blindagem patrimonial e a lavagem de capitais por meio de uma complexa rede de empresas e fundos
Produtor Musical é Alvo da Operação
O campo-grandense Ivan Carlos Miyazato, produtor musical conhecido no meio artístico por ter trabalhado com artistas como Gusttavo Lima, Luan Santana e Zé Neto e Cristiano, também foi alvo da operação contra o esquema bilionário de lavagem de dinheiro do PCC .
Conforme as investigações, ele teria envolvimento com Jonas Silva Corrêa, o "Gordão", apontado como um nome de expressão dentro da facção. Os relatórios do Ministério Público de São Paulo apontam que os dois são sócios na empresa Miyazato Music Produções S/A e Hiperhit Produções S/A, com Jonas figurando como diretor e Ivan como presidente.
As investigações apontam o envolvimento da facção na adulteração de combustíveis, fraudes fiscais, lavagem de dinheiro e manipulação de preços, com prejuízo estimado de R$ 7,6 bilhões em impostos federais, estaduais e municipais.
Em nota oficial, Miyazato afirma que já tinha conhecimento das investigações, mas nega haver provas de sua ligação com a facção. A defesa do produtor sustenta que as receitas da empresa "provêm da prestação de serviços lícitos e comprovadamente realizados".
Negociações de Delação
Foragidos desde o ano passado, Mohamad Mourad e Beto Louco negociam um acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo . Segundo apurações, eles teriam informações sobre pagamento de propinas que ultrapassam R$ 400 milhões a autoridades e políticos entre 2022 e 2024, em troca de vantagens tributárias e proteção no setor de combustíveis .
Enquanto o acordo com a promotoria paulista avançou, o pedido de delação na Procuradoria-Geral da República (PGR) segue emperrado desde outubro do ano passado . Ambos estão foragidos e teriam deixado o Brasil com destino ao Peru .
Em nota, a defesa de Mohamad Mourad nega qualquer envolvimento com o crime organizado: "A defesa nega veementemente qualquer envolvimento de Mohamad Mourad com o crime organizado. As ilações feitas a esse respeito não encontram respaldo em fatos" .



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